Fiz uma postagem recente falando direto no assunto, sobre se devemos ou não investir na moeda. E claro, nada expliquei sobre o que diabos é Bitcoin, então vamos lá, vamos falar um pouco mais sobre essa moeda. Vou dividir essa postagem em duas partes, sendo essa a primeira, mais simples, dinâmico, e direto. Na próxima eu aprofundo em alguns outros pontos.

O que temos aqui é a dúvida de tanta gente, especialmente diante de como o Bitcoin e outras criptomoedas voltaram com foragindo-se total na mídia.

Antes de falarmos, efetivamente, de criptomoeda, temos que entender sobre moedas em geral. Um pouco da sua história, de onde vieram, o que comem, como se reproduzem.
Aquela coisa velha, escambo, rotas de mercadores (rota da seda) pós-feudalismo, substituição da troca de coisa por coisa por algum elemento que validasse como valor (os “cheques”), nascimento das instituições privadas detentores dos valores (Bancos), assim os mercadores não andariam com o produto que seria trocado no escambo, mas sim com o papel, evitando o roubo das mercadorias, enfim, vocês entenderam o cenário.

Então temos o surgimento do Estado como elemento de validação de confiança, instituindo as moedas como conhecemos, moedas estatais, as tradicionais, com o rostinho lindo de cada Rei para se auto-firmar por terem um piru pequeno, e esse é o tal do lastro. É a garantia do Reizão, pelo seu ouro, validando com algum valor financeiro àquele bem móvel em forma de moeda.
Lastro, de forma leiga, também é a tal da confiança. A confiança colocada por algm. Todos nós sabemos que todas as atuais moedas são estatais, frutos de cada nação, e a gente combinou desde Hobbes (Leviatã) que a gente passaria a “confiar” no tal do Estado. Afinal, o Estado, em formato mais romântico, somos nós. Nós combinamos que alguns dos nossos poderes seriam colocados nas mãos de uma só pessoa, centralizando o poder e emprestando este poder à esta pessoa – O Estado, para que ele possa cuidar de nós. E ele, como cuidador da gente, do nosso corpo, e das nossas vontades, decidiu valorar uma certa moeda por ele escolhido, assim todos nós acreditamos nesta decisão e este credo, essa confiança, é o que sustenta o valor da moeda.

E as criptomoedas?
Elas não são Estatais. São anárquicas, rebeldes, cyberpunk, então a forma do seu nascimento é outro.
Então, analisar a forma do nascimento, surgimento e o crescimento das criptomoedas, necessariamente, precisa ser diferente.
É como se nas moedas tradicionais houvesse o dedo de Deus, num estalar em que criou Adão e disse “eu confio em ti, e todos confiarão em ti, vc é uma moeda”.
Nas criptomoedas não, é algo mais científico, mais orgânico (por mais engraçado que seja essa analogia, pois na realidade ele é digital!), ele terá que respeitar as etapas da maturação orgânica, assim como nós, em que nascemos e apenas babamos, comemos e cagamos, depois vem o estado de rebeldia, da adolescência, para se compreender o que exatamente somos, e então vem a fase adulta, reprodução, e por fim a de ancião, mestre de toda sabedoria do universo.
Eu diria que estamos hoje no final da infância, misturado com a adolescência, e em alguns raros aspectos, já na vida adulta.
O Lastro dele, portanto, também tem que obedecer esta regra da maturação, já que não temos um Deus-Estado comandando todos os terráqueos sobre confiarmos na moeda-Adão ou na moeda-Eva. Aqui, para as criptomoedas, precisaremos ser mais pacientes e ver a plantinha crescer, e muitas pessoas não conseguem compreender esse ponto importante, exigem dela uma maturidade que ainda não se atingiu, como se ela fosse igual as outras, mas não é, e equivoca-se em pensar assim. Equivoca-se, também, em pensar que ela seguirá a mesma forma das demais; mas como, se ela é o oposto?
Ou seja, ela começou de forma mais experimental, pelos early-adopters, como numa brincadeira, sem grandes seriedades, alguns destes dirão que vai ser a coisa mais revolucionária do mundo, outros ali são apenas malucos, e outros estão mais pela tecnologia por trás do que pelo valor financeiro, pelas possibilidades que encontram-se escondidos nela, como muito bem neste artigo. E neste ponto a gente atinge o céu na utopia máxima.
Num momento após, começa a acontecer (e aconteceu) uma adoção maior, pela questão especulativa, e então o Lastro começa a aparecer tal qual ocorre com as ações mobiliárias. Ou seja, lastro em si, já tem. Especulação é lastro, em que pese de um tipo absurdamente volátil. E aqui há a confusão, pois aquelas pessoas que não entendem de economia, se perdem nisso.
Equivocam-se em achar que não tem lastro, apenas por considerar volatilidade uma pseudo-característica de algo que não seja lastro. Bom, os mercados de ações funcionam muito bem, as grandes empresas se utilizam disso, então acho que o Mercado já responde por isso. E responde muito bem. A volatilidade das ações, por exemplo, não as impedem de operar, de obter lucros, de crescer, e desenvolver. Pelo contrário, colocar a empresa em alguma bolsa de valores é o ápice da empresa, é a certeza de que atingiu maturidade suficiente para estar nos grandes players, onde o mercado melhor funciona: de forma livre.
E aí as criptomoedas, portanto, passam a ser tratadas como comodyties, assim como o ouro. Especialmente pelo seu teor finito. Mas, e o que ocorre quando, da sua volatilidade, o ouro passa a ter maior variação de preço que as criptomoedas? Ou quando algumas criptomoedas passam, então, a valer mais do que o ouro? Exatamente! O Bitcoin já vale mais do que 4x o valor do ouro.
Quanto a variação do ouro ter sido de maior volatilidade que o Bitcoin, isso já aconteceu este ano, num problema político da Brexit, salvo engano.
Ainda sobre a confiança, aí teríamos que estudar mais a fundo sobre as diferenças entre o ouro (e outras comodyties) para as criptomoedas. Por exemplo, por que aquelas deixaram de serem usadas (já lá em 1300 d.C.) como moeda de troca? E substituídas por papel-moeda? Respondo, pelos roubos, pela logística, pelo peso, pelos gastos e dores de cabeça de se usar tais instrumentos. Mas e as cryptomoedas? Bom, por serem digitais, a sua agilidade, preço e segurança são até mesmo superiores aos formatos tradicionais de hoje.
Assim, é mais uma questão de tempo de ser evoluir a tecnologia para aperfeiçoarem outras tecnologias que permitam o melhor uso dessas novas moedas por parte dos comerciantes.
Com o maior uso por parte da população (pelo comércio) envolvendo como troca e pagamento, menor será a sua volatilidade. E a confiança que antes era repassada pelo Deus-Estado, agora será descentralizada (assim como a própria moeda é) pelos seus próprios usuários, e olha que curioso, quando sabemos e compreendemos que o próprio Estado é (ou deveria ser) a nossa própria representação de nós mesmos. Em última análise, se o Deus-Estado dá a confiança (e o lastro) pelos seus poderes, de igual forma ocorre quando as próprias pessoas dão a confiança, pelo seu uso.

Uma leitura que deixo como recomendação sobre lastro e confiança de moeda: “A Espiral Intervencionista ou Como o Governo Arruína a Economia” por Adriana Schumacher.